15, dezembro, 2015

A cerveja do dia-a-dia

Rodrigo Campos
Rodrigo Campos é mestre cervejeiro, ministra palestras sobre o tema e é presidente da ACervA cearense, com diversos títulos e prêmios

Lembro bem da época em que cerveja para mim era sinônimo exclusivamente de reunião com amigos, muita diversão regada a grandes quantidades da bebida e um bom tira-gosto. As cervejas disponíveis eram sempre as mesmas pois nunca tive muito o que escolher devido à pequena variedade ofertada. Na época eu não fazia idéia de que a oferta era pequena. O que existia de mais diferente era uma cerveja Lager holandesa da garrafinha verde, que já agradava muito por ter um sabor diferente, um amargor mais presente.

Há pouco tempo descobri uma cerveja que chamava a atenção pela bela apresentação em um copo grande e bonito. O ritual de serviço da era diferente, girando a garrafa ao servir o final do líquido. No início até pensei que aquele movimento era para ajudar a formar espuma, outra heresia para o bebedor de cerveja comum. Esta era uma cerveja de trigo alemã, dessas turvas servidas em copos altos e bonitos. Agora também sei que aqueles giros da garrafa não eram para aumentar a formação de espuma, mas para servir o fermento decantado no fundo da garrafa. O sabor dela também era diferente, assim como a textura, mais encorpada. Hoje acho que é pouco encorpada perto de outros tipos de cervejas que conheço. Minhas referências mudaram com os anos de degustações de cervejas, mas na época fiquei maravilhado e curioso sobre ela. Passei a pesquisar sobre cerveja na internet.

A partir daí, o meu gosto por cerveja foi mudando gradualmente. Comecei a procurar cervejas diferentes, sempre tentando provar algo novo. Já teve cerveja derramada na pia. Talvez meu paladar ainda não estivesse preparado para algo tão forte e diferente. Mas estas cervejas extremas do início não me fizeram perder o interesse. Muitas outras foram sendo degustadas. Aquela que inicialmente me deixou maravilhado já não parecia ser a mesma. Na realidade, ela era a mesma. Eu quem havia mudado. A experiência mudou a forma como eu encarava cada cerveja… Até mesmo aquela que foi derramada não assusta mais, pelo contrário.

Cerveja do dia-a-dia
Cerveja do dia-a-dia: como o paladar muda ao longo do tempo…

Passei a degustar as cervejas e não mais simplesmente bebê-las. A degustação nada mais é que a prova com atenção, usando os sentidos para captar o que a bebida degustada tem de melhor para apresentar. Ninguém nasce sabendo degustar com propriedade um determinado alimento ou bebida, mas essa capacidade pode ser desenvolvida. A prática e o estudo são importantes para desenvolver essa habilidade. Não faz mais sentido comprar uma cerveja de maior valor por ter mais sabor e tomá-la sem usar os cinco sentidos para perceber melhor a bebida e aproveitá-la ao máximo.

Passei a não tomar mais aquelas cervejas “comuns” com a mesma frequência, mas não deixei de consumi-las. Existem ocasiões onde não é possível ter acesso a outras cervejas. Algumas vezes o local não tem nada diferente, os amigos só bebem delas mesmo ou o dinheiro pode “estar curto” naquele dia. Não vou ser chato ao ponto de recusar uma cerveja entre amigos, mesmo que aquela não seja a cerveja que eu queria naquele momento.

A cerveja do dia-a-dia deve ser aquela com baixo teor alcoólico, podendo ser consumida em maiores quantidades sem problemas, e com relativo baixo custo. Realmente não estaria sendo sincero se dissesse que tenho a mesma sensação que tinha ao beber aquelas cervejas de antigamente, pois descobri que a cerveja pode ser muito mais saborosa. Mas existem algumas alternativas de custo relativamente baixo e com muito mais benefícios. As opções de cervejas artesanais brasileiras aumentaram muito e algumas delas podem ser encontradas com mais facilidade, principalmente para quem mora em alguma região que já conta tem microcervejarias. Existem microcervejarias com ótimas cervejas e a facilidade de distribuição ajuda a ter um preço melhor.

Rodrigo Campos Oliveira
Dentista de profissão, tem a cerveja como hobby. Escreveu o primeiro blog especializado em cerveja da região Nordeste de 2008 a 2013. Palestrante e consultor para bares e restaurantes na área de cerveja. Faz cerveja caseira desde 2011 e ensina a fazer cerveja em seus cursos desde 2014. Atual presidente fundador da Acerva Cearense (Associação dos cervejeiros artesanais do Ceará).
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