11, julho, 2012

Valorização da comida brasileira

Chefs, apresentadores de TV, entre outros profissionais, subiram ao palco do teatro do Hotel Senac Campos do Jordão para discutir a alimentação do futuro

Quando se fala em alimentação do futuro, você deve imaginar aquelas comidas industrializadas, comprimidos ou algo do tipo. Mas, apesar dos avanços na indústria de alimentos, o retorno à alimentação natural e ao uso de produtos artesanais foi o foco das principais palestras ministradas no TedxCampos 2012, que aconteceu em Campos do Jordão.

Alex Atala, o chef do  D.O.M (4º melhor restaurante do mundo) provocou a plateia ao dizer que em suas palestras em eventos internacionais costuma apresentar o que há de mais inusitada na cultura gastronômica brasileira. "Enquanto os brasileiros acham ruim eu ir para o outro lado do mundo falar de formigas comestíveis, os estrangeiros ficam impressionados com este hábito que para eles é exótico", diz o chef, que é um dos defensores da comida brasileira, do produtor agrícola e dos insumos nacionais.

Tanto que Atala lançou recentemente a marca Retratos do Gosto com o objetivo de incentivar agricultores e valorizar seus produtos. "Também precisamos preservar o meio ambiente e proteger mar, rios, florestas e um elemento fundamental: as pessoas que vivem daquilo. Conservar é proteger e preservar é dar uso para terra e aproveitar da melhor forma o que ela pode oferecer".

O chef também falou de criatividade. "A criatividade na cozinha é uma demanda. Rene Redzepi, do restaurante Noma (o 1º do mundo) disse que a nova descoberta dele na Dinamarca é formiga comestível. Criativo é fazer o que conhece de uma forma diferente. Criatividade com utilidade é fundamental. Aproveitar melhor os ingredientes é fundamental", destacou Atala.

Valorização do agricultor
Por falar em utilidade, Romeu Mattos Leite, fundador da Vila Yamaguishi, é uma referência em agricultura orgânica no Brasil. A Vila é uma comunidade baseada no convívio harmonioso entre as pessoas e com divisão igualitária bens, adquiridos com a produção e venda de alimentos orgânicos. A experiência com esse trabalho fez com que Romeu fosse convidado pelo Governo Federal para realizar um projeto com produtores de tabaco. "A idéia era encontrar alternativas para aqueles produtores, 80% deles pequenos agricultores. Eles queriam sair dessa produção, mas não tinham oportunidade. Até queriam produzir alimento no lugar de tabaco, mas, eles eram seduzidos pela chance de ter aumento na renda. A monocultura muda a a cultura local e a indústria tem mais de 60 tipos de agrotóxicos liberados", conta Romeu, que passou a buscar alimentos que poderiam voltar a ser produzidos.

"Nós queremos mostrar que o agricultor deve ter orgulho, ter auto estima elevada e pode ter boa condição financeira, além de acesso aos bens materiais. Alimento do futuro deve ter alta produtividade por área. É preciso entender a funcao social da terra – melhorar a auto estima, preservar a cultura e a diversidade de produtos", diz.

A chef carioca Teresa Corção descobriu o quanto um produto e tão brasileiro quanto a mandioca estava sendo menosprezado. "Meus funcionários nordestinos tinham vergonha de falar de mandioca para os filhos porque achavam que era comida de pobre. Começamos oficinas de tapioca com filhos de nordestinos. A gente queria mostrar que o passado deles tinha valor sim. Nem sempre projeto social gera renda, mas pode trazer apenas transformação social. As crianças e adolescentes passaram a cozinhar com as mães", conta Teresa com emoção.

Ela também comanda o grupo Ecochefs, que conta com 18 cozinheiros envolvidos com trabalhos sociais pela promoção da cultura gastronÔmica brasileira e valorização dos nosso insumos.

Brasil à mesa
Já a chef Mônica Rangel é mais uma corajosa e defensora da nossa comida. Ela criou a associação Brasil à mesa para defender a cozinha brasileira. " Eu fiquei indignada quando a Embratur voltou a trabalhar com o sistema de estrelas para hoteis, porém na parte de gastronomia era preciso ter cozinha internacional. "Como assim? Os restaurantes precisam ter como requisito comida brasileira nos cardápios. Falei com o presidente da Embratur e ele reconheceu que não pensou isso gastronomicamente", destaca a chef.

"Precisamos Valorizar o que é nosso.  Nós por muito tempo só valorizamos o que era de fora. É triste ver as cidades pequenas se esvaziando pq as pessoas estão indo para as cidades grandes.
A gente tem que valorizar o que é artesanal. O que é nosso", diz Mônica, que também está trabalhando para identificar pratos brasileiros que sejam universais e possam ser reconhecidos e comidos em qualquer lugar do mundo.

Chef Mirim
Outra participação de destaque foi a do apresentador de TV Biel Baum, que tem apenas 9 anos. Ao ver a mãe fazer trabalho com crianças que tinham problemas renais, decidiu que queria salvar crianças também. "Mas, não queria esperar ficar adulto pra ser bombeiro ou médico. A única coisa que sei fazer é cozinhar. Eu fui pra Suécia e conhecemos uma comunidade onde todos compartilham a comida. Lá, o chef me chamou para cozinhar uma lasanha para mais de 100 pessoas e ali eu vi que era meu lugar", afirma o garoto, que critica os fast-foods e cardápios para crianças dos restaurantes.

"Sou um grão de sal nesse mundo. Mas, eu sou teimoso. Vou fazer um menu para crianças – nenhuma criança merece comer só nugets ou macarrãozinho etc", diz o garoto, ressaltando que "nosso futuro deve ser orgânico e apoiando o produtor".

Não posso competir com as grandes redes, mas posso entrarem cada casa com a tv internet e mandar todo mundo pra cozinha. Nós crianças temos que nos movimentar porque se esperarmos pelos adultos, vamos virar batatinha frita".

 

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